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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CENTROS DE TRIAGEM DE ANIMAIS SILVESTRES - UMA REALIDADE DOENTIA, QUE POUCO MUDOU...

por Carlos Torres, terça, 6 de setembro de 2011 às 01:59


Há tempos penso em escrever esse artigo. Não propriamente na forma de um artigo, mas mais como um desabafo sobre uma situação com a qual convivi de perto e parece passar despercebida ou desinteressada por todos os envolvidos em sua existência, que são os Centros de Triagem de Animais Silvestres, do IBAMA.
Em 2003, recém-formado em Medicina Veterinária pela UFRRJ, assumi a área de Veterinária como único funcionário na área. Passaram-se três anos, suportados apenas por uma boa estrutura sócio-profissional que eu havia conseguido, com o apoio de poucos, criar entre o CETAS, a Fiocruz, a Rural e algumas outras instituições, que permitiam algum fluxo de informações e algum apoio técnico/estrutural.
Todo esse período foi recheado de pequenos problemas como: ausência de verba bem direcionada; administração deficiente por falta de pessoal; salários trimestrais; greve de todos os tratadores; trabalho insalubre, etc. Isso em meio ao recebimento, ‘quarentena’ e manutenção de 4000 animais/ano, com eventos com 500-600 animais de uma só vez.
Só a imaturidade profissional me manteve em uma estrutura que, claramente, não era feita para ser um fim, nem mesmo um meio. Os Centros de Triagem de Animais Silvestres, para mim, seriam parte de uma estrutura, respondendo pela triagem e destinação dos animais selvagens... Lógico não? Não. Como bem parodiou um colega e amigo mais experiente, os CETAS são como “ônibus sem freio e com o pneu furado, cheio de criancinhas. Não deviam nem começar a andar do jeito que estão”. Assim o são. Não há estrutura investigativa que se mantenha para combater o tráfico de animais silvestres. Na verdade, abusando talvez dos neologismos, uma estrutura Sócio-investigativa.
Quem passou naquele famigerado trecho da BR-101, próximo à Porto Seguro, e tem um mínimo de sensibilidade, perceberá parte da origem, não só dos animais, mas do problema. A questão social está claramente na base e na estrutura deste, como de outros tráficos. Tanto na população local que ganha uma miséria por animal, quanto no PM que furta, quanto na estrutura Político-cultural que impede qualquer investigação a fundo por parte das Polícias civil e Federal.
O aspecto cultural não é menos relevante. Como tive uma formação predominantemente urbana, não convivi nem nunca me imaginei matando ou engaiolando passarinhos. Certamente o engajamento precoce no montanhismo e o convívio com dezenas de biólogos, desde criança, tenha contribuído bastante para isso. Em um contraste absurdo, nos 10 anos que vivi na baixada fluminense, em Seropédica, (durante a graduação, o período que trabalhei no CETAS e o mestrado) convivi com crianças, adolescentes, jovens e idosos que adoravam manter seus passarinhos no sol, pela manhã.
Não acredito que possa ser considerado menos que paradoxal a existência do ‘CETAS modelo’ nesta cidade, com uma estrutura que não tinha condições, sequer, de ser visitada em segurança.
Agrupando os aspectos anteriores nos problemas ´Pré-’ e “Intra-CETAS”, restam ainda, entre outros, os “Pós-CETAS”. Para onde destinar esses animais se nem sabemos de onde vêm? Durante o tempo que permaneci no CETAS, impedi qualquer soltura sem critério, por acreditar na irresponsabilidade envolvida, para não falar no crime ambiental relacionado, na soltura de espécies exóticas a uma determinada região.
Solturas de animais, sem critérios ou qualquer monitoramento ou, ainda, sem uma avaliação prévia aprofundada da área de soltura, são, no mínimo, perigosas. Como minha formação acadêmica é mais relacionada à saúde do que à ecologia, sempre vi com certo temor tal atitude. Há uns anos, durante uma palestra que ministrei em um curso preparatório para fiscais, em meio a numerosas discussões internas sobre o assunto no CETAS, tentei apresentar um panorama que chamei ‘Caos Epidemiológico’. Primeiro expus a relação entre os diferentes tipos de estresse crônico e a ocorrência de doenças. Depois apresentei as doenças silenciosas que muitos temos e só aparecem em situações de desequilíbrio. Mostrei como a desnutrição, a permanência em ambiente inadequado, bem como o estresse psicológico, estão relacionados à queda da imunidade. Então pedi que imaginassem um local onde se concentrasse quatro a cinco mil destes animais, vindos de todos os cantos do Brasil (em um levantamento rápido, vi que na época em que preparei a palestra, nosso plantel tinha de 20 a 30% de espécies exóticas). Misturava-se então esses animais juntando, em espaços mínimos, espécies sinantrópicas com outras mais ariscas, espécies violentas e territorialistas com outras mais crípticas e delicadas, presas e predadores... em condições, muitas vezes, de superpopulação, outro estresse. Depois de alguns meses de convívio e troca de fluidos, seleciona-se alguns e solta! Doença de Chagas, Leishmaniose, Herpes diversos, Protozoários diversos, Clamydophila, vírus e outros organismos que não fazemos idéia, mas que matam, matam. Como soltar? Se esse não é o prenúncio de uma forma de Caos, não sei bem como analisar.
Lembro de uma Instrução Normativa que o IBAMA tentou montar sobre o assunto ‘Reintrodução de animais silvestres’. Participei de duas das reuniões feitas para a elaboração daquela que ficou conhecida como a ‘Instrução que não saiu’. As críticas mais comuns eram relacionados o fato de ser ‘criteriosa’ ou ‘exigente’ demais. Prefere-se manter algo desestruturado a tentar alcançar algo necessário, por ser muito difícil.
Atualmente, mais afastado da veterinária e atuando como consultor ou coordenador de projetos por minha empresa, tenho tido surpresas, paradoxalmente prazerosa e assustadora: Em um recente projeto de monitoramento de fauna silvestre, realizado em Tocantins e no Maranhão, percebi que conhecia, minuciosamente, muitas das espécies que foram detectadas neste período, mesmo as endêmicas. Algumas consegui identificar, em um primeiro momento, pelo cheiro.
Caso, como acredito, pensem em falsa-pretensão, afirmo que basta necropsiar ou conviver com centenas de melros, tamanduás, didelphídeos, tatus e preguiças, canídeos, capivaras, araras, jaratatacas, bugios, macacos-prego, lontras, entre outros, para perceber que todos têm um cheiro sui generis que adere à roupa e, depois de um tempo, torna-se inesquecível.
Enfim, o maior incômodo foi perceber que muitas, mas muitas daquelas espécies já haviam passado pelas minhas mãos, pelo CETAS no período em que lá permaneci. Muitas espécies cuja ocorrência passa longe da Mata Atlântica do Rio, algumas características do Cerrado ou da Amazônia ocidental...
Estes Estados visitados são caracterizados por áreas com as mais diferentes fitofisionomias do Cerrado e alguns fragmentos de Floresta ombrófila densa, característicos desta que é uma região de transição entre os biomas Cerrado e Amazônico. Todas as áreas avaliadas no citado monitoramento apresentam uma realidade bastante comum, porém agravada: A miséria e a falta do Estado em seu entorno; a impossibilidade de fiscalização. Sem contar um outro problema mais recente, que fecha um ciclo viciado: os poucos fragmentos mais preservados são utilizados como ‘Áreas de Soltura de Animais Silvestres’ (belamente chamadas ASAS).
Não há como descartar a importância dos Centros de Triagem, desde que seus pneus sejam trocados, assim como as pastilhas de freio, óleo, etc. antes de recomeçar a andar. Sem pensar no antes ou no depois, em todas as repercussões óbvias, como prejudicar qualquer monitoramento a longo prazo, além dos efeitos sobre a população local, pela sobreposição inequívoca de nichos ecológicos.
O que não falta é uma pseudo-integração entre os órgãos ambientais e de fiscalização propriamente dito, pelo menos não nos discursos inflamados de políticos a serem eleitos e nos demais demagogos de plantão. Por outro lado, também não faltam multas, ou Termos de Ajuste de Conduta, para financiar fundos de conservação e projetos necessários a manter o pouco que resta.
Ao contrário, falta o bom direcionamento, preparo e fiscalização dos recursos humanos e financeiros que, como todos sabem, existem e se perdem nos meandros dos órgãos supracitados, sem qualquer função na manutenção do sistema.

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